Ritual do toque
Tenho guardado um segredo no meu íntimo, um hábito que cresceu em mim sem pedir licença. Da primeira vez, poderia ter sido acidental, de tão impulsivo, ou talvez uma possessão. Foi quase um rompimento, como se algo tivesse tomado o meu corpo e me deixado de fora. Perdi o controle, perdi o pensamento e me invadiu um calor, subindo sem explicação.
Depois, acabei buscando sentir de novo. Eu mesma provocando o transe, como quem acende uma vela e espera o fogo consumir tudo. Tenho vergonha de contar quantas vezes posso ter feito isso essa semana.
É uma espécie de ritual. Geralmente, quando me deito e fecho meus olhos, quando o mundo se dissolve no silêncio. Esse silêncio que não é ausência, mas presença. Os grilos cantando lá fora sincronizados, o vento discreto roçando em folhas e galhos. Minha própria respiração, me fazendo expandir, me fazendo contrair. Tudo existe, tudo toca, tudo encosta.
Deixo meu corpo afundar na cama como se estivesse sendo lentamente reclamado por ela. O ar suave passeando contra meu rosto, minhas bochechas e meus lábios. Então, eu começo a imaginar.
Imagino que, em vez de apenas o vento, são as pontas de seus dedos passeando suavemente sobre os meus lábios.
Penso na sensação deles na minha pele, imagino o peso exato, a pressão mínima, o desenho lento do toque. Penso repetidamente até que a mente ceda e quase acredite. Empurro a realidade com a memória, com o desejo.
É sempre falha, claro. Mas eu tento toda vez, tentando achar todos os vestígios gravados em mim de você. Tentando copiar com exatidão as impressões digitais deixadas na minha pele e na minha mente. Eu busco você em mim como quem tenta reconstituir um corpo a partir de fragmentos.
Essas mãos estiveram aqui, aqui e aqui. Meu corpo responde, como se você tivesse voltado. Minhas costas arqueiam respondendo imediatamente ao toque invisível e eu quase você. Quase. Eu poderia levantar minhas mãos agora mesmo, esperando sentir o peso do seu corpo em cima do meu. Você não está.
Então, eu invento. Invento o gesto de te puxar para mim, encenando um filme que já foi. Invento o peso, o movimento, a urgência. Invento o gesto de te puxar para mim como se ainda fosse possível encurtar essa distância absurda entre o que foi e o que resta. Como se a saudade pudesse dar vida à memória.
Então, eu tomo. Exigindo que nossos corpos colidam. Que tipo de colisão vai ser essa? Algum dos corpos vai sobreviver ao impacto? Eu sinto que o meu vai se desfazer, mas não tenho medo e me entrego ao desmanche.
Me desfaço pra você e me refaço. Algo rompe de dentro pra fora. Abro os olhos como abriria pra você, tentando invocar com exatidão o seu olhar, com o cuidado de quem sabe que pode perder tudo se esquecer um detalhe. Como se a memória pudesse, um dia, alcançar o que foi. O que eu quero é simples demais, impossível demais: a sensação exata do seu peso contra o meu.
Eu penso que queria saber todas as suas perguntas. Eu penso que não preciso de nenhuma delas. Eu falo mais de outras formas.
O desejo se expande por todo o meu ser, para além dos meus limites e contornos, descobrindo dimensões de mim que eram desconhecidas. Tudo em mim se tensiona e estica buscando no que se segurar até que me desfaço em ondas.
Vem em ondas, mas não suaves. Violentas, desordenadas, me arrancando de mim mesma. O tremor se instala e eu já não sei o que ainda é memória e o que é invenção.O tremor se instala e eu estou embriagada, sem saber o que é real e o que não é.
O vazio da ausência ameaçando virar um alerta real demais, mas antes que ele se firme eu te puxo de volta. À força.
E deixo que o que sobrou de você, ou o que inventei de você, me envolva outra vez. Mesmo que seja só fantasma. Mesmo que nunca seja suficiente.
Obrigada por ler essa newsletter. Deixe um comentário e compartilhe ❤️


